Selecionando uma filmografia confiável para chamar alguém pra ir no cinema

Postado em 17/11/2011 / Por Marcus Vinicius

Não gosto tanto de filmes a ponto de ir fazer faculdade de cinema e conviver com pessoas que ainda usam bolsas de crochê, calças de Bali, fazem aquele gesto do enquadramento com os dedos e curtem passar o sábado assistindo a filmografia do Glauber Rocha, mas ainda assim posso dizer que gosto muito.

E por isso mesmo vivo procurando lançamentos no jornal, atrás de mostras de países obscuros como o Butão ou Bangladesh, festivais e sessões no meio da tarde, quando invento algum médico ou reunião para fugir e assistir a um filme.

Mas escolher algo para ver sozinho é tranquilo, você pode estar afim de ver "Transformers 10 - A volta da missão de vingança em resposta à primeira missão de vingança que não funcionou", ou então algum filme nepalês sobre monges que fizeram voto de silêncio e desenham mandalas de areia, filme que não conta com um diálogo sequer e que durante suas seis horas e meia de duração tem como o único som o barulho dos monges assoprando para desmanchar as mandalas.

Quando você é responsável somente pela sua experiência daquela ida ao cinema, nenhuma responsabilidade maior é envolvida. O problema é quando você resolve chamar alguém pra ir contigo.

Porque ainda que você seja um cara sensível, culto, educado, erudito e que até beba chá, chamar aquele parceiro do futebol para assisir "Bolshoi, o drama de uma bailarina" vai dar certeza a ele que você é realmente meio esquisitão e ainda por cima soar como um convite subliminar pra curtir uns momentos numa sauna.

Por outro lado, convidar a garota da faculdade que você está há seis meses tentando sair pra assistir "Orgia de Cérebros, o novo ataque das zumbis lésbicas" pode não ser uma boa idéia (e caso ainda assim você faça o convite e ela aceite, talvez convenha começar a se preocupar em mantê-la longe de facas e demais objetos cortantes).

Outra coisa são aqueles filmes com cenas de putaria aleatória.


Num minuto uma camponesa colhe alfazemas numa cena digna de rótulo de colônia de farmácia, logo depois ela aparece em sua bucólica choupana tomando sopa de tomate e em seguida já aparece nua, junto com seu meio-irmão e algumas cabras, numa cena em que o diretor queria monstrar como preencher o vazio existencial profundo, mas que ficou sem explicar o porque da necessidade das cabras.

Filmes assim não são para ver com sua mãe, sua avó ou a garota que você quer sair há seis meses. E caso ela curta, bem, ofereça logo um contrato pra ser agente da carreira dela como atriz pornô.

Assistir coisas como "Jackass", "Pen & Ênis, dois detetives da pesada" ou "Vomitando Helena" te fazem parecer meio idiota, por isso convém ir ao cinema usando uma máscara.

Mas a pior situação é quando você quer impressionar.

Escolhe cuidadosamente um filme búlgaro que fala sobre as primeiras 17 horas de um relacionamento amoroso que durou apenas 24. O filme é todo em preto e branco e a câmera é embaçada, nova moda na Europa, e então chama a tal garota que queria sair há seis meses pra assisti-lo.

Já na saída, depois da dificuldade em se manter acordado e fazendo cara de interesse mesmo durante uma cena em que a personagem leva nove minutos e meio penteando o cabelo, você vira pra ela e diz:

- E aí? O que achou?

- Legal...

- Legal?

- É, legal, OK e tal, mas eu preferia mesmo é ter ido ver "American Pie".

2 Comentários:

Anônimo postou 17 de novembro de 2011 05:24

Oi Marcus.
Sempre leio seu Blog e gosto muito dos seus textos, e os acho muito interessantes!!
Interessante essa sua observação de hoje!!!
Descobri que o filme "Fantasia", um Clássico de Walt Disney,de 1940 por exemplo, é um estilo de filme pra ver sozinho. Nunca ouvi alguém dizer que gostou. Só escuto dizer que é chato. Nem convidaria ninguém para assistir comigo.
Já assistí bem umas três vezes.
Você já viu? Tente.... rsrsrss

Catarina Sabino postou 17 de novembro de 2011 05:56

Adorei. curto muito os teus textos, rapaz. xD

 
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