O dia que recriarem o mamute

Postado em 15/03/2012 / Por Marcus Vinicius 5 Comentários

Cientistas russos e coreanos resolveram unir forças para recriar o mamute. Esqueça qualquer outra necessidade do mundo atual, o importante mesmo é conseguirmos tirar o Jurassic Park das telas e, quem sabe, até ser devorados por algum T-Rex um dia.

Só que por mais que tal experiência soe bizarra, ela nos fornece material para muita imaginação, afinal, não faltam coisas que poderiam ser revividas num labotarório e que tornariam o mundo bem mais interessante do que a volta no Mamute, ou "mamofante", como os cientistas resolveram chamar o bicho (ainda que isso pareça mais o nome do último sucesso do carnaval baiano).

Pra começar, podiam trazer de volta a vergonha na cara. Porque nem as ombreiras, nem a pochete e nem o mullet (aquele cabelinho que o Chitãozinho e o Xororó usavam quando a Sandy ainda nem pensava em fazer comercial da Devassa e dos benefícios do sexo anal), ficaram tão fora de moda quanto a vergonha na cara.

Digamos que vergonha na cara seja o mamute dos costumes, junto com o senso do ridículo, que é o mico leão dourado dos costumes.

Uma outra coisa que poderia ser ressucitada é a infância. Sim, porque esses mini-adultos cheios de opiniões, vontades e iPhones de hoje em dia são chatos pra cacete. Meninas de 7 anos se preocupando com o peso e moleques de 8 dizendo que querem "comer a Sabrina Sato" não são engraçacinhos, são apenas um sintoma de que a humanidade - que já não é algo que tenha dado muito certo - conseguiu piorar.


E depois do surgimento de Elvis, dos Beatles, do flower power, psicodélico, punk, pós-punk, gótico, metal, britpop e afins, alguma boa alma científica poderia reviver o rock'n'roll, porque do jeito que vai não haverá material para produzir nenhum revival nas próximas décadas, provavelmente fazendo surgir coisas como o neo-neo-neo-grunge.

Outra coisa legal seria alguém libertar expressões como "licença", "por favor" e "obrigado", entre outras, de algum fóssil e trazê-las de volta à vida.

Porque imagina que legal seria aquela mulher com 237 sacolas de compras e um poodle dentro da bolsa passar correndo por você na calçada, esbarrar, quase te derrubar no chão e ao invés de dizer algo como "porra, sai da frente, seu cara de cu", falar simplesmente "desculpa".

Finalmente os cientistas podiam dar uma forcinha e trazer de volta algumas coisas que você encontrava em qualquer esquina antigamente e que já não existem mais, como os fliperamas, aquele cheiro de álcool quando imprimíamos algo num mimeógrafo e o chocolate Surpresa, que era tão legal que teve até uma série de figurinhas sobre os dinossauros.

Pronto, poderiam lançar um Surpresa-Mamofante, assim todo mundo ficaria feliz.

Eu tive um sonho...

Postado em 13/03/2012 / Por Marcus Vinicius 9 Comentários

Acordei num dia em que os tablóides de 0,50 centavos não traziam nenhum escândalo ou frase de duplo sentido estampados, a Luciana Gimenez resolveu fazer medicina na Universidade Estácio de Sá e abandonou seu programa de variedades, a turma do Pânico cansou de fazer sempre a mesma coisa e foi apresentar um programa sobre hermenêutica na TV Cultura e a novelinha Malhação saiu do ar, depois que um dos atores de sua primeira temporada teve o primeiro neto.

Era um Brasil diferente, o Magazine Luiza vendia estantes para livros e as crianças não entendiam como alguém um dia realmente pôde gostar de "Ai, se eu te pego", sem falar em micaretas, que hoje só podiam ser vistas no Museu do Mau Gosto, junto com uma reconstrução cenográfica da Gaiola das Popozudas.

Curiosamente, o brasileiro não ficou menos brasileiro por isso, continuava com essa tendência genética a falar alto e trazer sempre uma gargalhada histérica pronta para ser disparada a qualquer momento, mas pelo menos parou de consumir toneladas de entulho no café, almoço e jantar, o que já era grande coisa.

Tiriricas ainda passeavam pelo Congresso, afinal, velhos hábitos não morrem facilmente, mas o cidadão médio cansou de ver sempre a mesma coisa, num loop de "É o Tchan", "Rebolation", "Bonde do Vinho", "Brasil Urgente" e "A Fazenda".


Das novelas, sobrou só a das oito, mesmo assim a título de preservação do patrimônio, já que apenas senhorinhas que já passaram dos 70 anos ainda assistiam aquilo.

Diziam que foi algo que os americanos colocaram na água, alguns suspeitaram de vazamento na usina de Angra, mas o fato é que eu achei bem legal o que vi.

Mas o mais pitoresco, o que mais chamou minha atenção, foi a velha casa do BBB. Algumas pessoas moravam ali, paredes de vidro e pequenas passarelas guiavam os visitantes sobre aquele zoológico humano.

Alguns atiravam um contrato para a capa da Playboy para uma moça, que em troca fazia gracinhas dentro de uma piscina, tal qual uma foca ou um golfinho em troca de um peixe.

O impacto foi tanto, que tive que perguntar a uma daquelas pessoas que observavam o porque daquilo tudo, e a explicação mostrou que eu estava realmente sonhando:

- Sabe o que é, moço, é que a audiência do BBB caiu, ninguém mais votava em paredões, ninguém comprava o pay-per-view, então resolveram tirar o programa do ar, só que esqueceram os BBBs presos aí dentro da casa.

- Que isso, e ninguém soltou?

- Nada, o Eike Batista comprou a casa de porteira fechada, com os participantes dentro e tudo, cercou e começou a cobrar ingresso, dizem até que foi por isso que passou o Carlos Slim como o homem mais rico do mundo.

Vá ao teatro, mas não me chame

Postado em 08/03/2012 / Por Marcus Vinicius 1 Comentário

Se tem uma coisa que dá medo é a frase "precisamos conversar". Depois dela, só mesmo "a gente podia sair pra dançar, né?" e logo em seguida, pelo menos para mim, é "vamos ao teatro?".

Sei que é quase um sacrilégio admitir isso, afinal, qualquer pessoa descolada, intelectualizada et al não deve dizer jamais tal coisa em público, mas sei lá, precisei compartilhar. Pior ainda é o fato de ser fã de Nelson Rodrigues, gênio que se confunde com o teatro, mas de quem eu, particularmente, gosto mesmo é das crônicas.

Mas se algo me redime é o fato do próprio Nelson fazer piada com o teatro em seus textos, quando dizia, por exemplo, que a platéia era basicamente composta de senhoras gordas com sacos de pipoca na mão, e que o tal "teatro moderno" ainda ia fazer um ator espirrar o sangue de um bife na cara do espectador, só para provocar emoções.

O que sei é que não acho muito legal as vozes empostadas, os gestos exagerados, as limitações do cenário (esqueçamos a Broadway  e algumas superproduções com seus efeitos especiais), aquela coisa meio caravana cigana que os próprios atores adoram. Outra coisa são aquelas interpretações livres, capazes de bolar uma montagem porno-escatológica da Branca de Neve.


 Tudo isso tem até o meu total respeito, mas sinceramente, me incomoda.

Causa um pouco de vergonha alheia assistir uma pessoa representando quase qualquer peça. A maquiagem, as caras e bocas, enfim, a menos que seja comédia - onde não só é permitido, como desejável, cair na gargalhada - eu fico meio desconfortável com Romeus, Julietas e Tios Vânias.

A comédia, aliás, é um capítulo a parte, já que conheço pessoas que dizem adorar teatro, mas que só vão mesmo assistir comédias (algumas, as mais estúpidas possíveis), afinal, com tanta coisa pra importar dos Estados Unidos, resolveram trazer logo o politicamente correto e o stand up comedy.

Claro que já assisti várias peças. Alguns musicais, alguns dramas e até algumas comédias. E em algum momento da apresentação eu até curti, mas sempre fazendo aquele esforço para dissociar o fato de que tudo aquilo representado ali seria muito mais realista, interessante e divertido se fosse no cinema.

E cheguei finalmente onde queria: pra mim, ainda que gente muito mais entendida diga que isso é bobagem, o cinema acabou com a graça do teatro. É como ouvir novelas no rádio depois que inventaram a TV.

Não resolvi contar isso tudo pra dizer que sou contra o teatro, que acho que o teatro deva acabar e nem que faço parte de uma parte da população geneticamente superior àquela que gosta de teatro, o objetivo é, talvez, fazer um apelo aos fãs da "nobre arte":

- Vá ao teatro, mas não me chame. Sério, por favor.

Não é que eu tenha aversão nem nada disso, pode ser até que eu me divirta, mas aposto que você consegue pensar em outra coisa melhor pra me chamar, como uma visita ao Museu do Cotonete ou um passeio pelo centro de Duque de Caxias, por exemplo.

Pra tudo existe solução, menos...

Postado em 06/03/2012 / Por Marcus Vinicius 4 Comentários

Relacionamentos não são fáceis, e isso não é novidade para ninguém que tenha mais de 7 anos e já tenha vivivo aquele amor infantil que te transforma num mini-psicopata que enforca as Barbies da menina por quem está apaixonado, só para chamar a atenção.

Se você notar, a história da humanidade é repleta de casos de homens baixotes querendo mostrar potência para suas amadas através de guerras mundiais, cheia de traições, de reis abdicando de tronos em favor de suas amadas e até uma igreja inteirinha (com padres, bispos e tudo) fundada só porque um Papa não quis autorizar um divórcio.

Além disso, todo um comércio que vai desde presentes nos dias dos namorados (aliás, dizem que casamento é tão bom, mas não existe um "dia dos casados", já percebeu?), sexshops, alianças de compromisso, noivado e casamento, enxovais e, lógico, advogados de partilha de bens é movimentado pela busca do ser humano pela sua metade da laranja, pela chave do seu cadeado, pela tampa da sua panela, pelo chinelo velho do seu pé cansado e, bem, chega, meu estoque de analogias bregas acabou e acho que você entendeu meu ponto: muito dinheiro também rola em torno do amor, não só o dos golpes do baú.


Sem contar a indústria de beleza com suas máscaras faciais, depilação a laser, academias, cremes, perfumes, produtos para metrossexuais (não interessa aqui se "sexo oposto" pra eles é fazer gol contra), escovas definitivas, tinta de cabelo, botox, tudo, sem exceção, com um único propósito: conquistar alguém, consumir qualquer um, nem que seja uma consumação mínima.

Some-se a isso boates, bares, músicas românticas, bem, já deu para perceber como além daqueles movimentos da Terra que a gente aprende na escola e eu não me lembro agora, amor e sexo também fazem o planeta girar (e nem me prendi falando sobre a profissão mais antiga do mundo).

Mas com tudo isso, toda essa busca, esbarra em problemas quase inexpugnáveis. Se o cabelo é muito crespo, você alisa, se é muito liso, faz permanente. Se tiver bafo, faz tratamento, se for brocha, toma Viagra. O gordo emagrece, o magro toma bomba, ou seja, para quase tudo existe uma solução.

Mas duas coisas me incomodam profundamente: como namorar alguém com voz chata e nome feio? Porque, por mais que você tente, jamais vai conseguir beijar o tempo todo, 16 horas por dia descontando as 8 de sono profundo, só pra não deixar o outro falar. E muito menos vai convencer a pessoa a ficar calada para sempre.

Mas isso nem é o pior. O pior mesmo é chegar num almoço de família e apresentar sua namorada:

- Galera, essa é a Querjinete Patrícia.

Sério, não rola.

Oncinha, cadê você? Deixa eu te explicar...

Postado em 01/03/2012 / Por Marcus Vinicius 2 Comentários

Algo que surgiu no carnaval 2011 acabou fazendo o maior sucesso no carnaval 2012. E não foi a reedição de Tchubirabiron e nem da Dança do Tamanduá, mas um site chamado "Oncinha, cadê você?".

A idéia é basicamente publicar histórias de amores de carnaval, para que aquele Arlequim possa reencontrar a Colombina que fugiu com um Luke Skywalker sem nem deixar o número do telefone. E mesmo não curtindo carnaval, achei a idéia tão legal que perdi algum tempo passeando entre textos como:

"Eu estava no metrô de Botafogo vestido de Cumpadi Uóxinton quando passou uma linda garota fantasiada de Amy Winehouse, nos falamos e trocamos uns beijos, mas como ela estava quase tão bêbada quanto a Amy verdadeira geralmente ficava, acabamos nos perdendo. Adoraria reencontrá-la para ensinar como se dança o Tchan. Amy do Metrô, cadê você?"

Convenhamos, mesmo com a parte da bebedeira incapacitante é, como dizem, fofo.

Mas nem todo caso dá certo, na verdade, nem toda tentativa vira um caso, ainda que só de cinco minutos, e porque não atender a todo esse imenso contingente de mal-amados também? Um "Pera aí, Oncinha, deixa eu te explicar" seria de igual utilidade pública. Imagine só ler coisas como:

Anúncio I:

"Fui no Bloco das Pururucas no Domingo, estava vestida de Dilma Rousseff e me apaixonei por um cara vestido de Obama Baiano. Conversamos, só que como eu já tinha bebido 37 cherry bombs e acabei vomitando na túnica dele, que ficou meio nojenta. Queria reencontrá-lo para mostrar que eu não sou assim. Obama das Pururucas, aparece por favor, eu juro que parei de beber". 


Anúncio II:

"Aconteceu em Ipanema, na terça-feira gorda. Eu estava fantasiado de barraca do beijo e conheci uma linda borboleta, com anteninhas e tudo, resolvi vender todos os meus beijos para ela e fechar a barraca, só que quando ela foi comprar uma água, bem, resolvi voltar pro mercado e me atraquei com uma Marilyn que estava passando. Só que a Marilyn era Mário e a Borboleta viu tudo e foi embora voando. Borboletinha, eu te juro que não sou galinha, nem viado, nem curto aquele negócio que eu estava segurando quando você chegou, me dá uma chance, vai".

Anúncio III:

"Cara fantasiado de Batman que estava na Lapa no sábado, eu sei que fiquei com seu primo, com o amigo dele e com o primo do amigo dele, mas te juro que gostei mesmo de você e não sou galinha, me dá uma chance, vamos sair de novo, eu prometo que se você me procurar eu te dou de prima. Sou aquela moreninha fantasiada de piranha empalhada".

Anúncio IV:

"Ciganinha de Laranjeiras, aqui é o seu marido, o carnaval já acabou há quase duas semanas, que tal você voltar para casa porque minhas roupas estão precisando de uma passada?".

Anúncio V:

"PacMan de Laranjeiras, aqui é a Ciganinha, eu não vou voltar para casa porque acho essa sua fixação por videogames uma coisa meio babaca e já enchi o saco dos seus amigos nerds, favor enviar a minha mala para a casa do Rei Momo de Botafogo, que é gordo, mas pelo menos é rico e pode pagar uma passadeira".

Não tenho certeza, mas até eu, que gosto tanto de carnaval que já cheguei a viajar pra São Paulo no período, acho que um serviço assim ia "dar samba".
 
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